sábado, 17 de abril de 2010

COISA POUCA QUE É PRA NÃO ASSUSTAR


Das vidraças do trem ele via o mundo. Sempre fora assim: a vida toda sem parada.
Novo dia e uma nova estação, um amontoado de gente diferente, sotaques de um povo que como ele davam duro na vida.
A necessidade fizera dele um errante e ele deixara há muito de resistir; Era passivo da dor de não ter o seu lugar e a sofria dia após dia.
Queria poder voltar pra casa. Não queria muito - aliás, ele não queria era nada. Apenas um chão pra deitar e dizer que era seu.
Sonhava sim e o dia todo. Uma portinha, uma janela, um telhadinho de zinco. Uma geladeira com alguns potes d'água, um fogãozinho. Uma patroa, uns três filhinhos e uma bicicletinha velha pra arrumar emprego.
Era isso e isso tudo bem pequenininho porque não tava acostumado a coisa grande.

domingo, 11 de abril de 2010


A bailarina girava, girava no ar
O vestido rosa e drapeado parecia voar
Os cabelos, presos numa tiara faziam da menina, princesa
Tamanha era sua delicadeza que se fundia aos movimentos dos braços, dos passos
O mundo todo parava pra olhar
Bailarina dos pés descalços
A menina sem sapatilhas
Roda, roda, roda menina
Vai buscar teus sonhos
Vai sonhar mais alto que o salto de bailarina.





Eu conto. Não canto.
Conto nos cantos
As cores, sabores e flores...
Eu conto nos cantos
Meus contos de dores.

VALSA TRISTE


Lá estava ela. O tronco deitado sobre a cama de lençol lilás enquanto as pernas dançavam no ar, num sintoma de desespero. A mão esquerda apoiava o queixo anguloso. A cabeça pesava porque toda ela era densa demais. E ela sabia disso.
Na outra mão, a caneta de ponta fina deslizava entre os dedos delicados. Era novamente a vontade de escrever que voltara a perturbar.

Desta vez, não havia lança alguma penetrando-lhe o corpo, dividindo-o ao meio, rasgando a carne. Mas o pensamento ainda era triste e cinza. Não sentia arder e já nem latejava. No entanto, ela sabia que o sangue, não mais tão vivo, ainda era quente. Não precisava de anestesia, ainda que a dose fosse pouca. Sentia aquele dia o pensamento doer, aliás, era sempre o que mais doía.
Quando escrevia tentava fazer-se gente. Corpo e mente e coração. O papel, já amarelo devido ao tempo, subestimava a menina e ela ansiava desafiá-lo. Era necessário vomitar tudo ali mesmo para que ela voltasse a ter paz. Precisava vomitar! E aquela era a hora. Queria cuspir para limpar o corpo e lavar o mundo daquela nojeira toda. Escrevia pra isso.
A chuva que caía, bem tímida, parecia escolhida a dedo para tornar ainda mais propício o 'despejo' do dia. Era feriado e fazia frio. Do frio ela gostava; não gostava era de feriado. Era triste e a fazia pensar. Estava farta de pensar; queria mesmo era escrever toda a loucura que a fascinava porque a lucidez era chata e branca, sem graça e para aqueles que só vivem porque foram lançados a vida... vivem porque morrer é mais trabalhoso.
Já estava a pensar em morte quando a vida queria, a todo custo, fazer-se viva. Ela apenas ansiava enquanto a vontade era escrever-cuspir-vomitar.
Ninguém podia entender. Nem ela mesmo entendia porque sempre preferia as valsas trágicas...